Segundo texto enviado por Kika Coutinho do livro Embuchada, para as leitoras grávidas e mamães do Amandica Indica!



Desapego

Estar grávida é desapegar-se. A gente começa se desapegando da cinturinha fina, das roupas da moda, do visual impecável. Aos poucos aceitamos calças jeans com o botão aberto, e, se bobear, fazemos de conta que não notamos o próprio zíper aberto aparecendo, enquanto não cedemos aos velhos e bons moletons.

O desapego da beleza é o primeiro que aparece quando não podemos mais tingir o cabelo, fazer uma progressiva, nenhum bronze artificial. Nada pode ser muito artificial quando se está grávida, porque os artifícios nos são negados, um a um.

Desapegamos das aparências também quando vomitamos em público, fora tudo o que torna-se incontrolável diante – pelo menos – do marido.

Nos desapegamos um pouco do emprego e dos horários que ele nos impõe, porque o sono torna-se a prioridade absoluta. Nos desapegamos de parecer inteligente numa reunião, porque a preguiça e o cansaço nos fazem ver que ser inteligente é a maior bobagem do século. Ser bonita então, é uma idiotice completa. Bom mesmo é ficar quietinha vendo a barriga crescer, tal qual uma vaca ou uma égua. É, nos sentimos totalmente bichos nessa fase e desapegamos um pouco dessa condição estúpida de ser humano. Que ser humano que dá leite gente? Qual??

Desapegamos das condições exigentes de higiene que nos empunhamos antes. Você não vai à banheiro público? Espere até ficar grávida. Você tem nojo de banheiro de rua? Pois vai desapegar desses nojinhos e achar um banheiro de casinha, daqueles horríveis de festivais, como um oásis em meio ao deserto. Essa necessidade absurda de fazer xixi nos faz ficarmos desapegadas de bobagens. Eu, pelo menos, já sei a rota de todos os banheiros da minha região. Sou capaz de identificar num raio de 50kms os banheiros mais próximos e menos ruins. Todos serão ótimos. Estou pensando, inclusive, em fazer um guia, tipo aquele da Vejinha: “Comer e beber, os melhores restaurantes de SP”. O meu vai se chamar: “Xixi e cocô, um guia dos melhores banheiros da capital” eu não faria isso antes. Nem falaria uma coisa dessas. Mas, agora? Desapeguei....

Desapegamos do nosso próprio umbigo, desapegamos de ir a festas chatas, desapegamos de obrigações sociais que se tornam absolutamente sem sentido.

A gente desapega até da gente mesma, das próprias dúvidas e inquietações. No início toda grávida pira com qualquer dorzinha: “ai, senti uma pontada aqui” e corremos para a internê para ver o que pode ser, perguntamos para as amigas e ligamos para o médico: “Dr, é urgente, senti uma pontada” depois, vai passando o tempo e a gente desapega. Sente uma dor forte na costela e diz para si mesma, enquanto come mais um pedaço de bolo: “Não deve ser nada”. E não é. Desapegamos porque confiamos.

O desapego é sinal de que o que não importa está no lugar do que não importa, e, aos poucos, todo esse desapego vai dando lugar a um novo apego. Um apego pelo que, de fato, importa: Esse pequeno peixe que chuta sem parar dentro de nós. O resto? Todo o resto é bobagem....

Quer falar com a autora do livro?
anacarolinascoutinho@yahoo.com.br

Um grande beijo,

Amanda Accioli


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